Padre António Vieira

Citações de Padre António Vieira

A admiração é filha da ignorância, porque ninguém se admira senão das coisas que ignora, principalmente se são grandes; e mãe da ciência, porque admirados os homens das coisas que ignoram, inquirem e investigam as causas delas até as alcançar, e isto é o que se chama ciência.

A ausência é o remédio do amor.

A boa e má opinião está na mão de um grande, porque tudo pode. Pode o mal, porque com o poder o executa; pode o bem, porque com a grandeza tudo se obra.

A boa educação é moeda de ouro. Em toda a parte tem valor.

A cabeça tem entendimento especulativo, as mãos têm entendimento prático, e este é só o entendimento que faz as coisas.

A cegueira do juízo e amor-próprio é muito maior que a cegueira dos olhos.

A cegueira que cega cerrando os olhos, não é a maior cegueira; a que cega deixando os olhos abertos, essa é a mais cega de todas.

A dignidade não se introduziu no mundo senão para abrigo daqueles que a não logram.

A diligência na guerra é tudo para com efeito se alcançar vitória.

A dor não tem juízo, e nenhuma é maior que a do amor ofendido.

A espada da justiça que se sustenta com demasiadas bocas, empobrece a todos, e todos a trazem na boca.

A Esperança é um afecto que, suspirando sempre por ver, vive de não ver, e morre com a vista.

A esperança promete bens, o temor ameaça males, e entre promessas e ameaças tanto vem a se padecer o que se espera, como o que se teme.

A esperança satisfaz-se com a medida do que se espera.

A fé e a caridade são afectos muito fidalgos, e muito bons de contentar. A fé para crer, basta-lhe uma profecia e fica satis­feita; a caridade para amar, quando não tenha benefícios, bastam–lhe agravos, que o amor até de ofensas se sustenta.

A fé não vê, mas vê-se: não vê, porque não vê os seus objectos, mas vê-se, porque se vê nos seus efeitos.

A fé que não dói, é muito fácil de crer; a fé que não se pode praticar sem dor, é muito dificultosa de admitir.

A fortuna com o que dá, faz grandes e o ânimo com o que despreza, faz grandiosos.

A fortuna nunca iguala os desejos dos homens.

A inclinação mais natural, mais viva, e que mais fortes e profundas raízes tem lançado na natureza humana é o desejo ou apetite da glória.

A inveja, como filha primogénita da soberba, pesa para cima, e todos seus tiros se assestam contra o mais alto.

A justiça está entre a piedade e a crueldade: o justo propende para a parte do piedoso; o justiceiro para a de cruel.

A maior capacidade que criou a natureza foi a do coração humano.

A maior gula da natureza racional é o desejo de saber.

A maior miséria da vida humana (outros dirão outra), eu digo que é não haver neste mundo de quem fiar.

A maior parte do que sabemos é a menor do que ignoramos.

A maldade é comerem-se os homens uns aos outros, e os que a cometem são os maiores, que comem os pequenos.

A melhor e a pior coisa que há no mundo é o conselho. Se é bom, é o maior bem; se é mau, é o pior mal.

A melhoria não está no lugar, senão na pessoa que o ocupa.

A mesma luz e a mesma candeia ao longe vê-se, ao perto alumeia.

A mim não me faz medo o pó que hei-de ser; faz-me medo o que há-de ser o pó.

A natureza a todos os homens fez iguais; a fortuna é que fez os altos, os baixos, e os baixíssimos.

A natureza fez o comer para o viver e a gula fez o comer muito para o viver pouco.

A nossa alma rende-se muito mais pelos olhos, do que pelos ouvidos.

A peste do governo é a irresolução. Está parado o que havia de correr, está suspenso o que havia de voar, porque não atamos nem desatamos.

A pior coisa que têm os maus costumes é serem costumes: ainda é pior que serem maus.

A primeira coisa que morre em o homem é a língua e a última coisa que lhe acaba é o coração. Será talvez porque a língua é que viveu mais desunida e por isso mais solta. O coração morre com menos pressa, porque todo o sangue se une para sua defesa.

A primeira vitória para alcançar outras muitas é sujeitar o juízo próprio, quem não é sujeito ao mando alheio.

A propriedade da quantidade é poder-se sempre dividir e a propriedade do amor é querer-se sempre dar todo.

A razão por que não achamos o descanso é porque o buscamos onde não está.

A restituição do respeito é muito mais difícil do que a do dinheiro.

A tristeza é um mal e enfermidade universal de que ninguém escapa.

A vaidade entre os vícios é o pescador mais astuto, e que mais facilmente engana os homens.

A vida de um homem compõe-se de muitas idades, e o que acontece em qualquer destas idades se diz com toda a propriedade e verdade que acontece nos dias daquele homem.

A virtude é a que dá o ser à honra e à fama; mas a honra e a fama são as que defendem a virtude.

A vista dos bens alheios cresce o sentimento dos males próprios.

A vitória tanto menos vale, quanto mais custa.

Acautele-se o coração humano e nenhum se fie de si.

Ainda que seja muito segura, muito firme e muito bem fundada a esperança é um tormento esperar.

Amar a quem me aborrece é ser humano com quem o não é comigo; aborrecer a quem me ama, é ser cruel com que mo não merece.

Amar a quem nos aborrece, é acto de generosidade; aborrecer a quem nos ama, é acto de ingratidão.

Amar e não ser amado é o maior tormento; ser amado e não amar é a maior injustiça.

Amar e não ser amado é ser mártir; ser amado e não amar é ser tirano.

Amor e ódio são os dois mais poderosos afectos da vontade humana.

Antes de o amarem poderá haver coração tão duro, que não ame nem queira amar; mas depois de se ver amado, há-de amar, e querer amar, ainda que não quisesse.

Antes de ver o fim não se pode fazer juízo.

Ao trabalho corresponde o fruto que se colhe.

Aos humildes a demasiada honra mais os embaraça do que os melhora.

Aos outros lugares, ainda que não sejam os mais altos, chega-se tarde e com dificuldade; ao último, logo e facilmente.

Aquele a quem convém mais do que é lícito, sempre quer mais do que convém.

As acções de cada um são a sua essência.

As acções generosas, e não os pais ilustres, são as que fazem fidalgos.

As batalhas mais invencíveis são as do entendimento, porque onde as feridas não tiram sangue, nem a fraqueza se vê pela cor, nenhum sábio se confessa vencido.

As cidades com ferro se defendem e não com ouro.

As coisas grandes não se acabam de repente; hão mister de tempo e todas têm seu tempo.

As coisas não começam do princípio como se cuida, senão do fim. O fim porque as empreendemos, começamos e prosseguimos, esse é o seu primeiro princípio, por isso ainda que sejam indiferentes, o fim, segundo é bom ou mau, as faz boas ou más.

As lágrimas são o mais vivo do sentimento, porque são o destilado da dor; são o mais encarecido dos louvores, porque são o preço da estimação; são o mais efectivo da consolação, porque são o alívio da natureza.

As obras de um herói, postas a uma luz escura da razão e da vontade, são borrões que ofendem; à melhor luz do entendimento são primores que admiram.

As varas do poder, quando são muitas, elas mesmo se comem, como famintas sempre de maiores postos.

Assim como a alquimia por arte tudo converte em ouro, assim a obediência por natureza tudo transforma e converte em virtude.

Assim como a obediência é o compêndio e união de todas as virtudes, assim a desobediência é o dispêndio e destruição de todas.

Assim como há esperanças que tardam, há esperanças que vêm. (…) As esperanças que tardam tiram a vida; as esperanças que vêm, não só não tiram a vida, mas acrescentam os dias e os alentos dela.

Assim como o amor só com amor se conquista, assim não há amor tão forte, ou tão fortificado, que se não renda a outro amor.

Bem fora que pudera mais com os homens, a memória, que a esperança.

Brilhar com demasiado luzimento nas acções, mais estorva os aplausos do que os granjeia.

Cada um em seu juízo não se deve estimar mais que aquilo em que ele mesmo se avalia.

Coisa dificultosa é que homens tão derramados nas coisas exteriores, cheguem a se ver interiormente, como convém.

Como a fortuna (…) não costuma subir a ninguém por seus degraus, em faltando degraus para a descida, tudo hão-de ser precipícios.

Como é necessária a vigilância na guerra, é também preciso maior cuidado na paz.

Como na guerra não há coisa mais para estimar que o vencer, assim não há outra mais para temer que a mesma vitória.

Como o que há basta para a ambição dos presentes, não querem aventurar nada com a esperança, porque possuem o que nunca esperaram.

Como temo que os que condenam as coisas novas sejam aqueles que não podem dizer senão as muito velhas, e pode ser que muito remendadas!

Conquistar a terra das três partes do mundo a nações estranhas foi empresa que os reis de Portugal conseguiram muito fácil e muito felizmente, mas repartir três palmos de terra em Portugal aos vassalos, com satisfação deles, foi impossível.

Considerai e medi bem os degraus, uns tão altos, outros tão baixos, por onde, tropeçando, ajoelhando e caindo, ou se perde a pretensão, ou se chega finalmente a tomar posse do lugar pretendido, e vereis quanto mais custa o alcançar que o merecer.

Crescer a grandeza que se não pode sustentar, é enfraquecer.

Das obras grandes ou pequenas, das acções generosas ou vis, cada um traz na própria cabeça a verdadeira medida.

De duas maneiras cega a fortuna, porque cega como luz e cega como fouce; com uma mão abraça e com outra corta; com a que abraça introduz a cegueira e com a que corta mostra o desengano.

De nenhuma coisa são mais avarentos os homens, que do louvor (…) de nenhuma são mais pródigos, que do desejo de receber.

De um erro nascem muitos, e sobre fundamento tão errado nunca houve edifício certo.

Dizem que temos valor (os portugueses), mas que nos falta dinheiro e união; e todos nos prognosticam os fados que naturalmente se seguem destas infelizes premissas.

Do sábio é próprio mudar o parecer.

Dores certas não se podem curar com remédios duvidosos.

Duas caras tem a inveja: uma com que no interior se entristece e outra com que no exterior se dissimula.

E assim como não há mármore nem bronze tão duro que, ferido do raio do sol, não responda ao mesmo sol com a reflexão do seu raio, assim não há coração tão de mármore na dureza, e tão de bronze na resistência, que, prevenido no amor, o não redobre e corresponda com outro.

É coisa tão dificultosa acomodar-se a trabalhar para viver, quem está costumado a outra vida, que esta mesma dificuldade é a que inventou a arte e artes de furtar.

É consequência própria e natural da inveja, perseguir os presentes e estimar os passados, matar os vivos e celebrar os mortos.

É empresa arriscada e inútil abraçar-se com quem se vai a perder.

É melhor que luzir em todo o tempo, o luzir somente a tempo; assim se enganam os olhos da inveja, e assim se concilia nos ânimos a estimação.

E que significa possuir a alma em vão, senão ser dotado de alma racional e não poder raciocinar?

É tão grande o sabor do alheio, é tal a doçura e suavidade do que se furta, que até pão e água, se é furtado, é manjar muito saboroso.

É verdade que muitas vezes tem maiores dificuldades o conservar, que o fazer, mas quem se gloria da feitura, não deve recusar o peso da conservação.

Em havendo olhos maus, não há obras boas.

Em nenhuma parte tanto como em Portugal se gasta tanto papel, ou se gasta tanto em papéis.

Em tempo em que só vale a lisonja, não podia parecer bem quem professa só a verdade.

Em todas as coisas há aumento, estado e declinação. O aumento pende do estado, mas a declinação sempre se origina do aumento.

Em todas as outras coisas o deixar de ser é sinal de que já foram; no amor o deixar de ser é sinal de nunca ter sido.

Em todos os parentes o amor é acidente que se pode mudar; no amigo fiel é essência, e por isso imutável.

Enfim, que neste jogo que o mundo chama da fortuna, não consta o ser má ou boa, senão no bom ou mau uso dela.

Enquanto os conselhos se não dão à execução, por mais conselhos e por mais decretos que haja, ainda se não tem dado princípio a nada.

Enquanto Portugal teve homens de “havemos de fazer” (que sempre os teve) não tivemos liberdade, não tivemos reino, não tivemos coroa. Mas tanto que tivemos homens de “quid facimus” (que fazemos), logo tivemos tudo.

Entre o conhecimento do bem e do mal há uma grande diferença: o mal conhece-se quando se tem e o bem quando se teve; o mal, quando se padece, o bem, quando se perde.

Entre todas as injustiças, nenhumas clamam tanto ao Céu como as que tiram a liberdade aos que nasceram livres e as que não pagam o suor aos que trabalham.

Entregar o coração com os olhos abertos, é querer a vista por prémio do amor: entregar o coração com os olhos fechados, é não querer no amor nem o prémio da vista.

Esta é a injustiça da fama, que tanto desacredita com o presumido, como ofende com o verdadeiro.

Estar todo em todo e todo em qualquer parte é propriedade só dos espíritos; e assim está em nós a nossa alma.

Estude-se nos acontecimentos passados, que são a melhor regra para os acertos, porque, como os livros são mestres para a vida, são aqueles sucessos lição para os prudentes.

Fazer mais ostentosa a dignidade do que ela é em si, é afectar fortunas; e se lográ-las é motivo para a inveja, afectá-las é estímulo para o ódio.

Fé e liberalidade são virtudes sinónimas; e quem está duvidoso no dar, não está firme no crer.

Fiar-se só de si, e aconselhar-se só consigo, tem o perigo do amor-próprio; fiar-se só de outro, e aconselhar-se só com outro, tem o risco do interesse alheio.

Foram muito menos os danos em que caíram os homens por lhes faltar a notícia do passado, que aqueles que cegamente se precipitaram pela ignorância do futuro.

Grande miséria é que não bastem os serviços, o amor e a verdade para conservar a graça dos príncipes e que baste a calúnia para se perder.

Grandes males não se curam senão com grandes remédios, e estes não se aplicam sem grande resolução.

Há casos em que a felicidade consiste não em se achar o que se busca e deseja, senão em se não achar.

Há casos em que por pedir licença se perdem as mais gloriosas acções.

Há homens que são como as velas; sacrificam-se, queimando-se para dar luz aos outros.

Humildade essencialmente é o conhecimento da própria dependência, da própria imperfeição e da própria miséria.

Ingratidão que desama, grande ingratidão é, mas a ingratidão que chega a desconhecer, é a maior de todas.

Instruir é construir.

Lembra-te, homem, que és pó levantado e hás-de ser pó caído.

Luzir português entre portugueses, e muito menos luzir com a sua luz, é coisa muito dificultosa na nossa terra.

Maior a utilidade que podemos e devemos tirar do conhecimento das coisas futuras, que da notícia das passadas.

Mais afronta a mesura de um adulador, que uma bofetada de um inimigo.

Mais aptos e capazes são dos grandes lugares os que pretendidos os recusam, que os que ambiciosos os pretendem.

Mais arriscada foi sempre a boa que a má fama, porque as grandes prendas são muito ruidosas, e muitas vezes foi reclamo para o perigo mais certo o mais estrondoso ruído.

Mais dá quem despreza o que espera, que quem dá o que possui.

Mais dificultoso é ganhar pouco com pouco, que muito com muito.

Mais fácil é unir distâncias, que casar opiniões e entendimentos.

Mais para temer é um homem desarmado, com entendimento, que todas as feras armadas, sem ele.

Mais se conquistam os reinos com a guerra civil dos próprios, que com a guerra viva dos estranhos.

Mais se dedicam as lisonjas ao interesse de quem as obra, do que ao decoro de quem as admite.

Mais temo eu a Portugal os perigos da opulência, que os danos da necessidade.

Mal é dizer mal, mas depois de o haverdes dito, dizerdes ainda que dizeis bem, é um mal maior sobre outro mal, porque é estar obstinado nele.

Meditar não é outra coisa que cuidar um homem no que lhe importa ou deseja e nenhum há que não medite.

Melhor fora não intentar que não conseguir; nem desejar os fins se não se hão-de aplicar os meios.

Melhor será arrepender agora, que quando o mal passado não tenha remédio.

Muitas vezes a mentira hoje no mundo é mais poderosa que a verdade.

Muito à pressa vive o que tudo quer lograr de uma só vez.

Muito mais custa abrir a boca para pedir, que fechá-la para calar.

Muito mais faz quem pede para dar, do que quem dá o que tem.

Muito mais para temer é o inimigo oculto e dissimulado, que descoberto.

Muito tempo há que a mentira se tem posto em pés de verdade, ficando a verdade sem pés e com dobradas forças a mentira.

Muitos cuidam da reputação, mas não da consciência.

Muitos diferentes visos fazem as acções generosas aos olhos da inveja, conforme a luz a que se opõe, e logo se vêem com agrados ou com defeitos.

Muitos não têm o coração dentro em si, senão fora de si e muito longe. Fora de si, porque não cuidam em si e muito longe de si, porque todos os seus cuidados andam só atentos e aplica­dos às coisas temporais e mundanas que amam.

Muitos neste mundo alcançam os cargos só pelo merecimento do seu vestido.

Na mesa onde se frequentar muito o jogo, cedo faltará o comer.

Nada receia perder, quem nada espera interessar.

Não basta que as coisas que se dizem sejam grandes, se quem as diz não é grande.

Não basta que as coisas que se dizem sejam grandes, se quem as diz não é grande. Por isso os ditos que alegamos se chamam autoridade, por que o autor é o que lhe dá o crédito e lhe concilia o respeito.

Não basta ver para ver, é necessário olhar para o que se vê.

Não creio nem crerei nunca a quem pode o que quer enquanto não quiser o que pode.

Não crer é ter o entendimento cego e obstinado; crer uma coisa e obrar outra, é totalmente não ter entendimento.

Não depende a grandeza, para a ruína, mais que de si mesma.

Não descuidar da sucessão, é reconhecer a mortalidade.

Não devemos condenar os amigos pela informação dos inimigos.

Não é amante quem morre porque amou, senão quem amou para morrer.

Não é de heróis a vingança.

Não está o erro em desejarem os homens ser, mas está em não desejarem ser o que importa.

Não há alegria neste mundo tão privilegiada, que não pague pensão à tristeza.

Não há amor que mais facilmente perdoe, e mais benignamente interprete e dissimule defeitos, que o amor de pai.

Não há coisa boa sem contradição, nem grande sem inveja.

Não há coisa que mais sintam os pais do que os castigos e penas dos filhos e descendentes.

Não há coisa que tanto mude as feições, como a fortuna.

Não há coisa tão preciosa, e tão útil, que continuada não enfade.

Não há inocência que esteja segura de um falso testemunho.

Não há leis tão justas e leves que não necessitem de quem as faça executar e guardar.

Não há poder maior no mundo que o do tempo: tudo sujeita, tudo muda, tudo acaba.

Não pode haver maior cegueira, nem mais cega, que ser um homem cego, e cuidar que o não é.

Não pode haver modo melhor de conhecer a desigualdade das forças que medindo-as.

Não se fazerem mercês, é faltar com o prémio à virtude; fazerem-se, é semear benefícios para colher queixas.

Não se há-de estar tão casado com o amor-próprio, que todos os partos do entendimento, por serem filhos próprios, pareçam formosos.

Não sei qual é a maior tentação, se a necessidade, se a cobiça.

Não só vos condenam os homens pelo que vós nunca imaginastes, mas condenam-vos pelo que nem eles imaginam de vós.

Não ver nada, é privação; ver uma coisa por outra é erro.

Nascer pequeno e morrer grande é chegar a ser homem.

Necessário é logo que haja prémios, para que haja soldados.

Nem todos os futuros são para desejar, porque há muitos futuros para temer.

Nenhum homem há que não dê pelo pão e ao pão todo o seu cuidado.

Nenhum segredo é segredo perfeito, senão o que passa a ser ignorância, porque o segredo que se sabe, pode-se dizer, o que se ignora, não se pode manifestar.

Nenhum segue mais leis que as da conveniência própria. Imaginar o contrário é querer emendar o mundo, negar a experiência e esperar impossíveis.

Nenhuma coisa desengana a quem quer enganar-se.

Nenhuma coisa deste mundo pára ou permanece, todas passam.

Nenhuma coisa se pode prometer à natureza humana mais conforme a seu maior apetite, nem mais superior a toda a sua capacidade, que a notícia dos tempos e sucessos futuros.

Nenhuma coisa trazemos os homens mais esquecida e desconhecida, nenhuma trazemos mais detrás de nós, que a nós mesmos.

Ninguém se contenta com a estatura que Deus lhe deu, e não há homem tão pigmeu ou tão formiga, que não aspire a ser gigante.

No golfo de uma privança, nunca o perigo é mais certo, que quando a fortuna é mais próspera.

No homem o poder é pouco e limitado, e o querer, sempre insaciável e sem limite.

Nós (portugueses) temos a nossa desunião, a nossa inveja, a nossa presunção, o nosso descuido e a nossa perpétua atenção ao particular.

Nos grandes são mais avultados os erros, porque erram com grandeza e ignoram com presunção.

Nós somos o que fazemos. O que não se faz não existe. Portanto, só existimos nos dias em que fazemos. Nos dias em que não fazemos apenas duramos.

Nunca se empregam os homens na luz que vêem, senão nos defeitos que a luz lhes mostra.

O amor acredita-se no supérfluo: quem ama pouco, contenta-se com o que basta: quem ama muito, contenta-se com o que sobeja; e quem ama mais que muito, nem com o que basta nem com o que sobeja se contenta, ainda sobe mais, ainda passa mais adiante.

O amor deixará de variar, se for firme, mas não deixará de tresvariar, se é amor.

O amor depois da perda vê-se na dor; antes dela, no receio.

O amor é o preceito; a correspondência, a obrigação; o amar, império; o ser amado, obediência.

O amor em matéria de ausência, se é sofrido, não é grande; se não é impaciente, não é amor.

O amor essencialmente é união e a união não pode unir um extremo, sem que una também o outro.

O amor essencialmente é união, e quanto mais une ou procura unir os que se amam, tanto maiores efeitos tem, e tanto maiores afectos mostra de amor.

O amor fino não busca causa nem fruto. E não pode haver mais fino nem mais provado amor que aquele que entrega o coração e fecha os olhos. Entregar o coração com os olhos abertos é querer a vista por prémio do amor; entregar o coração com os olhos fechados é não querer no amor nem o prémio da vista.

O amor não é união de lugares, senão de vontades; se fora união de lugares, pudera-o desfazer a distância, mas como é união de vontades, não o pode esfriar a ausência.

O amor perfeito, e que só merece o nome de amor, vive imortal sobre a esfera da mudança, e não chegam lá as jurisdições do tempo.

O amor pesa-se na balança da paciência: padecer menos, é amar menos; padecer mais, é amar mais.

O amor sempre é amoroso, mas umas vezes é amoroso e unitivo, outras vezes amoroso e forte. Enquanto amoroso e unitivo, ajunta os extremos mais distantes; enquanto amoroso e forte, divide os extremos mais unidos.

O avarento chama pródigo ao liberal; o covarde temerário ao valente; o distraído hipócrita ao modesto; e cada um condena o que não tem, por não confessar o que lhe falta.

O bem ou é presente, ou passado, ou futuro: se é presente, causa gosto; se é passado, causa saudade; se é futuro, causa desejo.

O certo é que toda a fortuna tem jurisdição no amor: se é adversa, ninguém vos ama; se é próspera, a ninguém amais.

O efeito da memória é levar-nos aos ausentes, para que estejamos com eles, e trazê-los a eles a nós, para que estejam connosco.

O entendimento acha o que há; a vontade acha o que quer.

O erro por que muitas vezes se não acertam as eleições dos ofícios, é porque se buscam os homens grandes nas casas grandes, e eles estão escondidos nas casas pequenas.

O fim para que os homens inventaram os livros foi para conservar a memória das coisas passadas contra a tirania do tempo e contra o esquecimento dos homens, que ainda é maior tirania.

O fruto, quando está maduro, se se não colhe, cai e apodrece. Não está a felicidade em viver muito, senão em viver bem.

O homem incapaz de julgar, por um lado, nem vê o que é melhor nem o aprova; por outro, aprova o que é pior e segue-o como se fosse o melhor.

O ingrato não só esteriliza os benefícios, senão também o benfeitor: esteriliza os benefícios, porque os paga com ingratidões e esteriliza o benfeitor, porque vendo o benfeitor que se pagam com ingratidões os seus benefícios, cessa, e não os quer continuar.

O livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive.

O livro visto por fora, não mostra nada; por dentro está cheio de mistérios.

O livro, sendo o mesmo para todos, uns percebem dele muito, outros pouco, outros nada.

O maior pensar da criatura humana é comer; desde que o homem nasce até que morre anda a procurar o pão para a boca.

O mal não está em ser tentado, está em ser vencido.

O melhor modo de pedir é agradecer.

O merecimento da esmola não consiste em que a comam aqueles para quem a dais, senão em que vós a deis para que eles a comam.

O merecimento sempre foi mal visto dos invejosos; são os olhos da inveja os que dão quebranto às acções generosas, que, como de cristal, estalam ao lume dos mesmos olhos que as vêem.

O não ter respeito a alguns, é procurar, como a morte, a universal destruição de todos.

O ofício e obrigação dos poetas não é dizerem as coisas como foram, mas pintarem-nas como haviam de ser ou como era bem que fossem.

O ofício há-de transformar-se em natureza, a obrigação há-de converter-se em essência, e devem os homens deixar o que são, para chegarem a ser o que devem.

O pó futuro, o pó em que nos havemos de converter, vêem-no os olhos; o pó presente, o pó que somos, nem os olhos o vêem nem o entendimento o alcança.

O primeiro efeito, ou consequência, da necessidade é o desprezo da honra; o segundo, a destruição da virtude.

O que dá e tira os reinos do mundo é o direito das armas.

O que se põe em questão e disputa, igualmente se põe em dúvida; e quem duvida da sua fé, qualquer que seja, já é herege dela.

O querer e o poder, se divididos são nada, junto e unidos são tudo.

O retractar-se não é argumento de não saber, mas de saber que muitas vezes pode acertar o menos douto no que o mais letrado não advertiu.

O ruído que faz a grande fama também faz com que o grande seja de todos roído, quando nas asas da fama se vê mais sublimado.

O Sol pode fazer dias longos: dias grandes só os fazem e podem fazer as acções.

O tempo e a ausência combatem o amor pela memória, a ingratidão pelo entendimento e pela vontade.

O tempo umas coisas melhora e outras corrompe.

O tudo deste mundo e do outro é a alma, não é o mundo.

O uso de ver tem fim com a vida, o apetite de ser visto não acaba com a morte.

Obra-se mal não só quando se obra, nem só quando se aconselha, senão também quando se permite.

Oh, se os livros falassem, quantas ignorâncias haviam de dizer que consultam com eles de noite, os que de dia se publicam grandes letrados.

Onde há muito em que eleger, não pode haver pouco sobre que duvidar.

Ordinariamente vemos grandes resplendores, onde não há luz, e grandes luzes sem nenhum resplendor.

Os afectos da nossa alma, se são extremamente intensos, ateiam-se pela vizinhança ao corpo, chegando o corpo a padecer por enfermidade o que a alma padece por sentimento.

Os ânimos desejosos de fazer bem, mais os lisonjeia quem lhes pede, que quem os louva.

Os bens que mais nascem do ânimo que da fortuna, melhor se asseguram, porque aqueles guardam-se no peito, e estes cansam os ombros.

Os bons anos não os dá quem os deseja, senão quem os assegura.

Os brutos distinguem-se dos homens, em que os homens se governam pelo entendimento, e os brutos pelos sentidos.

Os dois nervos da guerra são gente e dinheiro.

Os exemplos dos tempos passados costumam ser as regras e documentos para os presentes e futuros.

Os governos são para fazer bem com o pão próprio, e não para acrescentar os bens com o pão alheio.

Os homens costumam conhecer nos outros, não a pessoa, senão a fortuna.

Os homens não amam o que cuidam que amam.

Os homens quando testemunham de si mesmos, uma coisa é o que são, e outra coisa é o que dizem.

Os impérios e reinos não os dá nem os defende a espada da justiça, senão a justiça da espada.

Os inimigos da campanha podem-se vencer uma e muitas vezes, os da nossa corte são invencíveis; aqueles com as vitórias vão-se diminuindo, estes com elas crescem mais.

Os inimigos que mais temo a Portugal são soberba e ingratidão, vícios tão naturais da próspera fortuna que, como filhos da víbora, juntamente nascem dela e a corrompem.

Os ladrões são casta de gente em que se emprega melhor o castigo do que se pode esperar a emenda.

Os mais felizes reinos não são aqueles que têm as mais bem entendidas cabeças, senão aqueles que têm as mais bem entendidas mãos.

Os martírios vistos de perto são muito mais feios que de longe.

Os modos de guerrear são tantos, quantos tem inventado o amor para a defesa própria, e o ódio para a ruína do inimigo.

Os muros, como o cinto, não são muros enquanto se não fecham.

Os olhos da inveja nunca vêem sem dar olhado.

Os outros lugares, quanto mais altos, tanto menos segurança têm, e a sua mesma altura é o prognóstico certo da sua ruína.

Os Portugueses não se contentam com se lhes dar o pão partido; há-se-lhes de dar todo o pão, sob pena de não ficarem contentes. Daqui se segue que nunca é possível que o estejam.

Os que cuidam que tudo sabem necessitam de mais advertências, porque erram mais torpemente; por isso necessitam de mais conselhos, porque presumem que de nada carecem, cegueira em que os mais advertidos tropeçam.

Os que pela experiência do que têm visto crêem o que está prometido, vê-lo-ão, porque são dignos de o verem; os que não crêem, ou não querem crer, a sua mesma incredulidade será a sua sentença e já que o não creram, não o verão.

Os textos são da justiça, as interpretações podem ser da lisonja.

Os vícios nunca nos fartam, a virtude logo nos enfastia.

Para aprender não basta só ouvir por fora, é necessário entender por dentro.

Para conseguir efeitos grandes, e para levar a cabo empresas dificultosas, mais segura é uma ignorância bem aconselhada, que uma ciência presumida.

Para falar ao vento bastam palavras, para falar ao coração são necessárias obras.

Para não mentir, não é necessário ser santo, basta ser honrado, porque não há coisa mais afrontosa, nem que maior horror faça a quem tem honra, que o mentir.

Para ver com uma candeia, não basta só que a candeia esteja acesa, é necessário também que a distância seja proporcionada.

Pelo que fizeram, se hão-de condenar muitos, pelo que não fizeram, todos.

Perguntado a um grande filósofo, qual era a melhor terra do mundo, respondeu a mais deserta, porque tinha os homens mais longe.

Pior é uma verdade diminuída que uma mentira muito declarada.

Pois, o que é ignorar invencivelmente senão ignorar e não conseguir saber? E o que é a ignorância invencível senão a ignorância acompanhada da incapacidade de saber aquilo que se ignora?

Por mais que sejam muitos os notadores dos livros, são muito mais os que no mundo vivem notados.

Porque é timbre da nossa nação (Portugal), tanto que sai à luz quem pode luzir, tragá-lo logo, para que não luza.

Porque importa pouco o ter tomado, se se não conservar o que se tomou.

Pouco conhece a riqueza da saúde, quem cuida que por algum preço pode ser cara, quanto mais caríssima.

Pouco fez, ou baixamente avalia as suas acções, quem cuida que lhas podiam pagar os homens.

Prudência é o saber acomodar, para melhor luzir e viver.

Quaisquer meios são mortos se não forem activamente postos em acção por vivos e fortes instrumentos aptos para operar.

Quando as dores são iguais, sentem-se todas; quando uma é maior, suspende as outras.

Quando julgamos os outros, condenamo-nos a nós.

Quando o amor deixa de ser credor, só então é pobre. Finalmente, ser tão grande o amor que se não possa pagar, é a maior glória de quem ama…

Quando o propósito do arrependimento se ajunta com a resolução do pecado, nem é arrependimento nem é propósito, porque a resolução de pecar contradiz o propósito da emenda, e o pecado presente desfaz o arrependimento futuro.

Quando se procede contra partes não ouvidas, ainda que se pronuncie o que é justiça, sempre se procede sem justiça.

Quanto é mais eficaz e poderosa para mover os ânimos dos homens a esperança das coisas próprias, que a memória das alheias?

Quanto maior é na cabeça o esvaecimento, vem a ser mais no coração a fraqueza.

Quanto o bem desejado está mais vizinho, tanto é maior o desejo.

Que cousa é a conversão de uma alma, senão entrar um homem dentro em si e ver-se a si mesmo?

Que não crerá o amor, quando se lhe promete o que deseja muito!

Quem ama porque o amam, é agradecido; quem ama para que o amem, é interesseiro; quem ama, não porque o amam nem para que o amem, esse só é fino.

Quem busca o desengano tarde, não se desengana.

Quem diz o que entende, tão fora está de mentir, que antes mentiria se fizesse o contrário.

Quem em tudo quer parecer maior, não é grande.

Quem hoje se atreveu ao criado, amanhã se atreverá ao senhor.

Quem levanta muita caça e não segue nenhuma, não é muito que se recolha de mãos vazias.

Quem não dá todos os dias do ano, não dá o ano, dá partes dele somente.

Quem não lê, não quer saber; quem não quer saber, quer errar.

Quem não pergunta por ignorância, pergunta por gosto.

Quem não tem poder não tem amigos.

Quem nas asas da fama voa também padece, porque não há asas sem penas, ainda que estas sejam as plumagens com que o benemérito se adorna.

Quem padece muito pelo que muito ama, a sua cruz é a sua glória.

Quem pode mostrar em sua mão os despojos, sempre tem por si a presunção da vitória.

Quem quer mais do que lhe convém, perde o que quer e o que tem.

Quem quer mais que lhe convém, perde o que quer e o que tem.

Quem quiser apurar os quilates do amor, toque o amor do que se ama com o amor do que se deixa, e logo conhecerá quão fino é.

Quem se confessa por réu, não lhe fazem agravo as testemunhas.

Quem só dá aos particulares, diminui o poder, porque se faz senhor de poucos.

Quem tem muito dinheiro, por mais inepto que seja, tem talentos e préstimo para tudo; quem o não tem, por mais talentos que tenha, não presta para nada.

Quem tem seis asas e voa só com duas, sempre voa e canta. Quem tem duas asas e quer voar com seis, cansará logo e chorará.

Queremos ir ao Céu, mas não queremos ir por onde se vai para o Céu.

Saudar com os iguais é acto de amizade, com os maiores de urbanidade, e com todos de humanidade.

Se as dores inconsoláveis podem ter alguma consolação e alívio, é a semelhança ou companhia de outrém, que as padeça iguais.

Se não quero fazer companhia, arrisco-me a ficar só. Se quero ser amigo de todos, arrisco-me a ter todos por inimigos.

Se no passado se vê o futuro, e no futuro se vê o passado, segue-se que no passado e no futuro se vê o presente, porque o presente é futuro do passado, e o mesmo presente é o passado do futuro.

Se nos vendemos tão baratos, porque nos avaliamos tão caros?

Se o só não terá quem o levante, também não terá quem o derrube. E maior felicidade é carecer do perigo de quem me derrube, que haver mister o socorro de quem me levante.

Se um homem está verdadeiramente arrependido, se conhece verdadeira e profundamente as suas culpas, nunca ninguém dirá dele tanto mal, que ele se não julgue por muito pior.

Seja o futuro emenda do passado, e o que há-de ser, satisfação do que foi.

Sem igualdade e igualdade com todos, não há paz.

Sempre se deram as mãos a ruína e a felicidade.

Sempre se deve antes escolher paz do que guerra, principalmente quando na guerra é tão certa a ruína.

Sendo a glória o fim e a graça o meio de a conseguir, antepor a graça à glória e o meio ao fim, não só parece dissonância, senão desordem manifesta.

Sendo muito poucos no mundo os homens que podem luzir, aqueles diante dos quais se possa luzir, ainda são muito menos.

Sendo tão natural ao homem o desejo de ver, o apetite de ser visto é muito maior.

Só a necessidade há-de obrigar à guerra, mas a vontade sempre há-de desejar a paz.

Só no que sobeja se segura o que basta.

Só quem tem por natureza o mais, tem confiança para se chamar o menos.

Só se sabe querer bem, quem se sabe livrar de si.

Sobre presunções não assenta bem alguma condenação de direito, principalmente quando é grave.

Tanto depende o que se diz da autoridade de quem o diz.

Tanto foi em todas as idades do mundo e tanto é hoje, na curiosidade humana, o apetite de conhecer o futuro!

Tanto são maiores finezas, quanto mais ocultas, porque fazer o benefício e esconder a mão, assim como é maior generosidade, assim é maior fineza.

Tem o interesse olhos de multiplicar, ou as dignidades a que anela, ou as riquezas a que aspira, parecendo-lhe sempre mais do que são, porque estão inficcionados com o achaque da cobiça.

Todo o relógio perfeito não só dá horas, mas tem um braço mostrador com que as aponta.

Todos atiram ao alvo e poucos acertam, porque o acertar é de uma só vez, e o errar é de muitas.

Todos imos embarcados na mesma nau, que é a vida, e todos navegamos com o mesmo vento, que é o tempo.

Todos os que na matéria de Portugal se governaram pelo discurso, erraram e se perderam.

Todos querem mais do que podem, nenhum se contenta com o necessário, todos aspiram ao supérfluo, e isto é o que se chama luxo.

Três mais há neste mundo pelos quais anelam, pelos quais morrem e pelos quais matam os homens: mais fazenda; mais honra; mais vida.

Três mais há neste mundo, pelos quais suspiram, pelos quais anelam, pelos quais morrem, e pelos quais se matam os homens: mais fazenda, mais honra, mais vida.

Tudo conquista o amor, quando conquista uma alma, porém o primeiro rendido é o entendimento.

Um grande delito muitas vezes achou piedade; um grande merecimento nunca lhe faltou a inveja.

Uma das potências da alma é o entendimento, o qual nunca aumenta e cresce, senão quando já desfalece o corpo; amostra desta verdade é a experiência, pois nunca os homens se vêem mais avultados no entendimento, senão quando muito crescidos nos anos, e para se aumentar aquela potência da alma, parece que com os muitos anos necessariamente se hão-de desfazer as forças do corpo.

Uma velhice enganada é a maior sem-razão do tempo: uma mocidade desenganada, é a maior vitória da razão.

Uns se conservam pelo que foram, outros pelo que são.

Vemos que todo este mundo é vaidade, que a vida é um sonho, que tudo passa, que tudo acaba, e que nós havemos de acabar primeiro que tudo, e vivemos como se fôramos imortais, ou não houvera eternidade.

Vencer é avantajar-se, competir é medir-se.

Viver do próprio a pão e água é a maior penitência: viver do alheio, ainda que seja a pão e água, é grande regalo. Tão saboroso bocado é o alheio!